A gente escreve pra reinventar as palavras. O texto é uma gênese, por isso no princípio está o verbo. Cada vez que as repetimos, de algum modo voltamos ao berço das noções das coisas. E isso nos ajuda iluminar o futuro. É luz para nossos caminhos.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Para um conto culinário
i:
Em cada mão trazia ele saberes de uma culinária modesta mas incisiva. Aprendeu-a como uma arte de agradar intimamente, ainda que guardando distância. Fazia de todo apetite preliminares. Cada prato trazia algo poético, do desejo de alcançar o interior das pessoas, acarinhar a boca alheia e garganta adentro arrancar elogios untados, murmúrios e especialmente a saliva. Seu prazer aflorava por detrás de um sorriso maroto ao reparar no rosto entumecido de quem servia de suas delícias, a obsena expressão de gozo invadindo os sentidos imediatos aos lábios, à lingua, às narinas, sob o olhar aquecido e picante. Não apenas os apetites; punha a própria fome a seu favor.
ii:
Sua especialidade não estava tanto na sofisticação de ingredientes, mas no tratamento do que tinha à mão. Ervas, sementes, gorduras, caldos, e a combinação destes elementos entre si. Imaginava cada preparo como um ato criador de uma pequena fauna e flora, cuja vida dependia das alianças engendradas entre essas criaturinhas mágicas, os ingredientes e seus aliados tempêros. Inspirava-lhe o flerte morno entre a manteiga e a oliva, o apêgo das raspas de castanhas ao teso verde do alecrim, a lenta entrega das carnes à mistura de ervas, cebolas, pimenta, alho, canela e cardamomo, antes de fundí-las ao fogo. Cada qual, a seu tempo, exalando cheiros e estalos no ambiente. Uma liturgia de processos necessariamente simultêneos que, ao acaso, permitiam misturas outras, deslizes sutis de colheres entrepassando-se de uma panela a outra, desavergonhadamente. O melhor de suas receitas estava nessa heterodoxia vívida do improviso, combinando o inusitado em sabores.
(...)
sábado, 30 de maio de 2009
Arte comtemporânea
Gauge, de Philip Napier.
Museu da Apartheid, Johannesburg, janeiro de 2007. No acesso ao interior do museu, uma instalação artística: um espaço circular, relativamente amplo, de paredes altas – como um grande cilindro – bem iluminado. Do alto do teto descem cabos de aço sustentando uma balança há uns 2 metros do chão; pendurados às balanças estão grandes alto-falantes, quase rentes ao chão. O espaço convida a entrar e passear em torno do núcleo, onde estão "sendo pesados" os alto-falantes, enquanto emitem ruído de água corrente e agradecimentos insistentes: "thank you". Creio que minha interação com esta intervenção no Museu, bem como a visita ao mesmo a partir dessa experiência, foi enriquecida por um detalhe simples: em nenhum momento passou pela minha cabeça a pergunta "que significa isso?"; antes, a vivência imediata do espaço e seu efeito sobre mim levou-me a perceber a pergunta brotando: "o que (me) aconteceu aqui?".
Trata-se da instalação Gauge de Philip Napier, concebida como um protesto contra a defensiva do Governo Britânico em relação à ação militar durante um manifesto pacífico em favor dos Direitos Humanos em Derry, Irlanda, em 30 de janeiro de 1982. Na ocasião, 14 pessoas foram assassinadas, no dia que se tornou conhecido como "Bloody Sunday". Desde 16 de dezembro de 2006, comemorando o Dia da Reconciliação, a instalação está em exposição no Museu do Apartheid, em Johannesburgo (cf. www.apartheidmuseum.org).
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Godard para ser visto
A REVISTA TEÍNA tem rendido boas leituras desde a um bom tempo - os créditos vão para meu cunhado, que me indicou... Na última edição, "Erótica do poder", há um texto curto (veja abaixo, também o link) mas muito sugestivo sobre o "tratado" cinematográfico de Godard em "Histórias do cinema". Consegui torrent das três (1, 2, 3) partes do filme com legendas em português, em formato AVI.
--------
El cine: ¿comunicación social o séptimo arte?
Muchos cineastas han intentado prescindir de la narración convencional en las películas, aproximándose a un equivalente del ensayo en literatura. Jean Luc Godard logró la obra más conseguida de este subgénero, quizá porque se basó en un sólido texto, Historia(s) del cine.
Luis Rubén LeónTexto completo em: http://www.revistateina.com/teina/web/teina19/cine5imp.htm